quarta-feira, setembro 22, 2021

Cientista luta contra ameaça silenciosa do mercúrio na Amazônia

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A Amazônia representa 62% da área do Peru. Acolhe 51 povos originários diferentes e uma enorme biodiversidade, como poucos outros lugares do mundo. Recordando a exortação pós-sinodal do Papa Francisco, “Querida Amazonia”, cujo primeiro aniversário foi celebrado em fevereiro, e recordando os princípios da Laudato si’, a encíclica do Pontífice de 2015, vamos conhecer os esforços da cientista Claudia Vega para proteger a Amazônia e o seu povo.

Nas últimas décadas, a Amazônia tem sofrido forte pressão por causa da extração excessiva de seus recursos naturais, registrando altas taxas de desmatamento e conflitos sociais. Uma das mais conhecidas é a de Madre de Dios, considerada “a capital da biodiversidade do Peru”.

Claudia Vega estudou na escola jesuíta do distrito de El Salvador. A sua preocupação com a natureza e a vida de todos os seres humanos provavelmente tem suas raízes nas muitas atividades que realizou com o grupo de escoteiros do instituto. Uma vez concluído o ensino médio, ela investiu muito tempo e esforço na preparação profissional em áreas como química e medicina veterinária, saúde e proteção ambiental.

A cientista recolhe amostras de sedimentos nos rios

Atualmente, Claudia Vega faz parte de um importante grupo de cientistas da Amazônia peruana, no departamento de Madre de Dios, considerada a capital da biodiversidade. Lá, ela é coordenadora do Programa Mercúrio no Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia), que tem como objetivo estudar a poluição por mercúrio na área.

Claudia observa que, “infelizmente, em Madre de Dios, a principal atividade econômica é a mineração artesanal do ouro em pequena escala (Mape), que é feita usando mercúrio, um metal tóxico”. A atividade da Mape é a principal fonte de mercúrio antropogênico em nível mundial, e 52% do mercúrio liberado pela Mape em todo o mundo vem da América do Sul. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), “a Mape está associada a muitos problemas de saúde ocupacional e ambiental, especialmente quando praticada informalmente ou com recursos materiais e técnicas limitadas”.

O Papa Francisco, na encíclica Laudato si’ de 2015, destaca como estamos testemunhando um “uso desproporcional dos recursos naturais” feito historicamente em certas áreas do planeta. “As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados do Norte industrializado produziram”, recorda o Pontífice, “danos locais, como a poluição por mercúrio em minas de ouro ou a poluição por dióxido de enxofre em minas de cobre” (51).

A cientista explica que, para estudar esse fenômeno, foi iniciada uma colaboração entre Cincia, Wake Forest University (Wfu) e USAID, a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, para criar um centro de pesquisa que encontrasse soluções inovadoras para o impacto da Mape na Amazônia peruana. Em 2017, foi criado o primeiro Laboratório de Mercúrio e Química Ambiental, com o objetivo de desenvolver estudos específicos na região. Até agora, foram realizadas mais de 300 amostragens para analisar a situação da poluição por mercúrio: solo, sedimentos, peixes, ar, aves, seres humanos (cabelos).

Uma equipe internacional e multidisciplinar

Claudia enfatiza que o trabalho científico que realiza envolve diferentes profissionais do país: “trabalho com engenheiros florestais, biólogos e ecologistas do Peru e de outros Estados que estão familiarizados com o impacto” que tais atividades provocam.

Membros da equipe internacional que trabalham nos laboratórios

O conhecimento tem poder

Ao mesmo tempo, ela insiste: “estamos convencidos de que o conhecimento tem poder. Diagnosticar um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Precisamos produzir informações científicas a fim de comunicá-las às pessoas (ao público em geral) e aos órgãos decisórios (instituições) para que sejam levadas em conta na implementação de políticas públicas que visam o desenvolvimento sustentável e a proteção da saúde humana e do ecossistema na região amazônica”.

Estudantes participam de sessão de formação sobre o impacto do mercúrio

Os males permanecem, os benefícios vão embora

A cientista aponta o paradoxo da mineração: “ela causa um impacto na região amazônica, mas os benefícios produzidos por essa atividade vão para fora da região”. Portanto, é importante destacar o impacto da mineração em pequena escala, como o desmatamento e a poluição por mercúrio, “para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de melhorar os métodos de mineração e buscar soluções inovadoras”.

Impacto da mineração nas florestas e na água

A face humana da mineração

Em um contexto marcado pela atividade mineradora, Claudia acredita que é essencial conscientizar a população e, em particular, as crianças e os jovens, para promover mudanças de comportamento na preservação da natureza. O Papa Francisco na Laudato si’ enfatiza como a educação é chamada a “criar uma ‘cidadania ecológica'” para “cuidar da criação com pequenas ações diárias” até “moldar um modo de vida” (211).

Temos casos de crianças e familiares de mineradores que, explica a cientista, “estão estudando biologia ou assuntos relacionados e trabalhando conosco para encontrar soluções para o impacto da mineração”. E ela continua: “temos que pensar que a mineração representa uma forma de subsistência para milhares de pessoas; esta questão tem um contexto social e econômico muito complexo que implica consequências muito sérias em termos de meio ambiente e saúde humana”.

Comunidades nativas, as mais afetadas pelo mercúrio

Outro elemento importante, observa a cientista, é que “as comunidades nativas estão entre as populações mais afetadas pela exposição ao mercúrio porque esse metal atinge níveis elevados em alguns peixes que são fonte de proteína para as comunidades, representando um risco para a saúde”. O trabalho realizado pela equipe Cincia parte da observação de que o uso do mercúrio na mineração tem efeitos tóxicos sobre o meio ambiente e todos os seres vivos, ao mesmo tempo em que gera desmatamento e perda de cobertura vegetal. O uso crescente desse metal e a presença em peixes e outros animais consumidos por humanos faz das crianças e mulheres grávidas um grupo muito vulnerável: “o mercúrio pode atravessar a placenta e alcançar o cérebro do feto, causando danos irreversíveis”, diz Claudia.

A voz das comunidades indígenas

A cientista insiste que, para a vida futura das comunidades indígenas, o uso de mercúrio na extração de ouro deve ser evitado. Igualmente importante é que eles “façam ouvir sua voz em nível nacional e internacional porque têm coisas muito importantes a dizer e a nos ensinar sobre o respeito à natureza”.

Para as pessoas comuns, acrescenta Claudia, “é importante saber o custo de tudo que usamos; no caso do ouro, embora seja um metal precioso, pode ter um impacto negativo na região onde é extraído. Na região amazônica, a Mape provoca o desmatamento, a transformação da floresta em deserto e a poluição química”.

Amostragem com a ajuda de membros da comunidade

Claudia, referindo-se à América Central, declara: “a questão dos efeitos da mineração artesanal está apenas no início e ainda não é uma questão importante, mas tem todo o potencial para se tornar uma, porque infelizmente somos uma região onde há muita pobreza e as pessoas estão procurando meios para sobreviver. Aqui, a segurança e o sentido de proteção da natureza são fracos ou ausentes”. Nesse sentido, o governo peruano ratificou a Convenção de Minamata, assegurando o compromisso de mitigar os impactos negativos sobre o meio ambiente e a saúde humana gerados pelo uso inadequado do mercúrio: impactos que – como reconhecem as autoridades de Lima – afetam principalmente os povos indígenas.

A voz de “Querida Amazonia”

O Papa Francisco se refere às culturas e às principais preocupações dos povos originários, expressas no Sínodo para a Amazônia. Os povos indígenas da Amazônia, enfatiza o Pontífice em “Querida Amazonia”, “expressam a autêntica qualidade de vida como um ‘bom viver’ que implica uma harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica e se manifesta em sua forma comunitária de pensar a existência, na capacidade de encontrar alegria e plenitude numa vida austera e simples, assim como no cuidado responsável da natureza que preserva os recursos para as gerações futuras. Os povos aborígines poderiam nos ajudar a descobrir o que é uma sobriedade feliz e, nesse sentido, ‘têm muito a nos ensinar'”


Por Manuel Cubias/ Vatican News
Imagens: Cincia
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