Milton Hatoum: um olhar pela Amazônia

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Por Náferson Cruz / Amazônia360

Apontado pelos críticos como um dos mais importantes escritores brasileiros dos últimos tempos, o amazonense Milton Hatoum, aos 68 anos, é conhecido por misturar suas experiências e lembranças pessoais como o contexto sociocultural da Amazônia e do Oriente. Autor de contos, romances e novelas, colunista de jornais e, curador de um livro de fotografias, Milton, também é chamado de “o escritor de coleciona prêmios”.

Na conversa com o jornalista Náferson Cruz, Hatoum espraiou seu pensamento sobre a política social e a arquitetura que fizeram de Manaus o que ela é hoje, segundo o escritor, uma cidade cravada no coração da Amazônia, mas da qual a natureza foi suprimida.

Professor, tradutor e arquiteto, Hatoum também conta um pouco de sua experiência e anseios como escritor. Atualmente, ele contabiliza mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil, além de traduções das obras em 12 línguas e publicadas em 14 países. Confira a entrevista:

O senhor fez de sua cidade natal, Manaus e da Amazônia, um pano de fundo ou personagens de livros como “Dois Irmãos” e “Órfãos do Eldorado”, consideradas duas obras-primas. Manaus é a metonímia da Amazônia?

Milton Hatoum – Se for, estamos perdidos. Manaus é muito menor que a Amazônia e ainda não deu certo como cidade. A capital amazonense é um local indecoroso no cerne da Amazônia. Há 40 anos Manaus era uma cidade mais humana porque convivia com a natureza. Depois, o que houve em Manaus foi um embrutecimento da vida urbana, com o crescimento desordenado habitacional, comercial e industrial inconsequente. Diante dessas circunstâncias, a natureza foi banida da cidade que mora no coração da floresta.

Abordar o tema “Amazônia Pluralista”, como o senhor menciona, não seria de tamanha complexidade?

Milton Hatoum – É preciso se aproximar de uma microrregião e entender aquilo, entender o tipo de vocação econômica, cultural e de quem habita ali, além de fazer estudos de planejamento antropológico, econômico, geográfico e da riqueza do solo e subsolo, porque diante da grandeza e da complexidade da região, precisamos ainda de muito estudo, séculos de estudo para começar a entender essa região.

“Se agora começasse uma administração eficiente, acho que ainda demoraria muito tempo para recuperar a dignidade dessa cidade e do povo”

Os temas: Amazônia, sustentabilidade e aquecimento global, estão cada vez em evidência. Esse não seria o momento de reverter o quadro representando por danos ambientais?

Milton Hatoum – A situação é muito grave. Se não houver uma conscientização da população não sei o que pode acontecer. O que eu sei é que Belém (PA) investiu e sua memória histórica e deu certo apesar dos inúmeros problemas. Manaus tem uma área portuária abandonada, uma sujeira incrível, não há calçadas, sem falar da falta de arborização e de praças nos bairros, além dos igarapés poluídos. Se agora começasse uma administração eficiente, acho que ainda demoraria muito tempo para recuperar a dignidade da cidade e do povo.

O senhor costuma em suas obras falar de lares desestruturados com uma leve tendência política. Essa é uma tentativa de mesclar a sua história e a do Amazonas?

Milton Hatoum – Apesar de todos esses entraves, como já falei antes, gosto do povo amazônida, amo essa gente. Mas, com a Zona Franca de Manaus (ZFM) e suas indústrias, Manaus perdeu altivez, perdeu o mínimo de cidadania que ofereceu aos manauenses até os anos 60. O que trouxe a ZFM? Empregos que cada vez mais estão sendo extintos, fábricas deixando a cidade, o crescimento desordenado e favelas. Podemos culpar os empresários com suas empresas de maquiagem, mas devemos, sobretudo, culpar os sucessivos governos ultra-populistas, ultrademagogos, pela falta de política urbana para tornar a cidade mais humana. Tudo isso faz parte do mundo manauense, misturado com o mundo de imigrantes, que também já fazem parte da cultura brasileira. Dessa forma, esse é o meu mundo, nasci nesse mundo, mas é um mundo distante do tempo.

“Arranca-se a floresta como se as pessoas não necessitassem de sombra, isso pela falta de visão urbana, sensibilidade cultural e de amor pela cidade”

O que diferencia a arquitetura de Manaus das outras capitais?

Milton Hatoum – O atributo da arquitetura não é apenas a visão, é a própria vida, você habita o espaço projetado, dorme lá, come lá, conversa, convive, se relaciona nesse espaço. Então, esses projetos de habitação popular são, para mim, uma espécie de tara arquitetônica. A implantação de de conjuntos habitacionais em Manaus é totalmente irracional, arranca-se a floresta como se as pessoas não necessitassem de sombra, isso pela falta de visão urbana, sensibilidade cultural e de amor pela cidade. Esse é um dos lados que gerou essa transformação negativa. A cidade tem que ser pensada, refletida, não pode ser jogada, não pode crescer de forma aleatória. O que eu acho é que a intervenção urbana e arquitetônica em Manaus é muito burra. Optaram pela verticalização de uma cidade que venta pouco, onde há espaço para uma expansão horizontal que é mais propícia ao clima. Manaus tenta erroneamente, copiar São Paulo, que por sua vez é uma cópia muito precária de Miami e do Rio de Janeiro. O Rio ainda tem uma coisa dos anos 50 e 60 que é interessante, que tem haver com a escala urbana, com a paisagem, com os morros e montanhas, com o relevo e com o mar. No caso de Manaus, você pode notar que os edifícios não são avarandados, não tem proteção solar, não são pensados em função do clima.

Como o manauense reflete a a cidade?

Milton Hatoum – Acho que o cidadão manauense não tem nem condições de refletir. O povo, do jeito que vive, dessa forma bruta que vive, não tem condições de refletir sobre a cidade. Ele sabe que sofre, que mora no inferno – a maior parte da população mora em um inferno, porque a periferia de Manaus é um retrato do que há de mais terrível. Há muito sofrimento. Você passa horas dentro de um ônibus morrendo de calor, os igarapés estão poluídos e quando chove há enchente, quando não chove o calor é brutal.

Entre conto, novela e romance, existe um gênero que o senhor considera o mais complicado?

Milton Hatoum – Acho que não, são modos de narrar muito diferentes, são gêneros distintos, embora os estilos literários sejam uma convenção. O romance é um trançado de eventos e, quando essa teia de eventos cresce, não tem como pensar em outro gênero. Talvez na novela.

“Passei quase dez anos escrevendo ‘Dois Irmãos’. Não adianta uma quantidade absurda de livros e não dizer nada. Tem de haver sentimento, qualidade e apreço pelo que você faz”

O senhor pensa no gênero quando escreve?

Milton Hatoum – Não. Eu deixo endurecer a ideia. Alguma coisa me inquieta e logo depois vou estruturando os conflitos, para saber, mais ou menos, quem são os personagens, qual a relação entre eles e também como se dá a passagem do tempo. A partir daí, então, começo a escrever. Geralmente, escrevo a primeira página, o começo e o fim. Preciso saber como começa e como termina, porque o grande problema, o mistério é essa ponte, é como se dá o arco que vai da primeira página à última. O romance é a arte da paciência, como a pesquisa. Na pesquisa você não pode ter pressa. As pesquisas duram anos, porque dependem da observação, do empírico, dos testes, de coisas comprovadas ou não.

O senhor já recebeu por duas vezes um dos maiores prêmios da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti, e quatro de suas obras já foram contempladas em grandes eventos literários. Esses prêmios são esperados?

Milton Hatoum – Não escrevo para ganhar, mas para mostrar a história e a cultura do povo da Amazônia, para que os leitores assimilem o contexto. Os prêmios são consequência de um trabalho feito com qualidade. Posso citar a obra “Dois Irmãos”, a qual passei quase dez anos escrevendo. Não adianta uma quantidade absurda de livros e não dizer nada. Tem de haver sentimento, qualidade e apreço pelo que você faz.

 

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