domingo, novembro 28, 2021

Ouro Negro: quando jorrou petróleo pela primeira vez no Amazonas

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Por Náferson Cruz | Amazônia 360º

 

Nova Olinda do Norte (AM) – Era madrugada de 13 de maio de 1955 quando centenas de operários do poço petrolífero NO-3 da Petrobras, no município de Nova Olinda do Norte, situado à margem direita do rio Madeira, foram às lágrimas e emoção. Sobre eles caíram gotas do ‘ouro negro’ que jorrava a 45 metros de altura durante 15 minutos, segundo relatos dos moradores mais antigos.

Diante do feito histórico, dois mil trabalhadores extasiados reverberavam o Hino Nacional. O pequeno vilarejo, que mais tarde foi elevado à categoria de município, ganhou ainda mais destaques nos noticiários do País com as passagens dos presidenciáveis Café Filho e Juscelino Kubitschek. Este último, por sua vez, chegou a se molhar com seu terno branco no petróleo que veio à flor da terra.

Torre de extração NO.3, localizada na Ilha de Maracá, em frente a cidade de Nova Olinda do Norte, no AM (Marcel Gauherot/Arquivo)

Após a repercussão, a cidade entrou num ciclo de prosperidade com a construção de hospital, maternidade, escolas, acesso à água potável e energia elétrica. Abundância inimaginável para os ribeirinhos da pequena Nova Olinda, que, até então, tinham uma vida pacata subsistenciada pelo roçado, plantio e pesca. Hoje, a maioria dos 45 mil moradores do município desconhece tal feito histórico, que repercutiu o mundo inteiro, anunciando a grande descoberta do maior lençol petrolífero do Brasil.

Segundo relatos de antigos moradores, a chegada do ‘ouro negro’, que na realidade tinha tons verde-claro ou vermelho, se visto contra luz, foi um ímpeto incontrolável, seria o presságio de que Nova Olinda do Norte se transformaria na cidade do petróleo. Contudo, essa esperança teve pouquíssima duração.

Presidente Juscelino Kubitschek com autoridades na Casa de Força do complexo petrolífero- (Reprodução/Agência Nacional)

Em 1964, contrários ao golpe militar, a maioria dos funcionários da Companhia se amotinou nos dois clubes da cidade – “Manutenção” e “Petro Clube”- numa atitude de apoio ao presidente do País João Goulart. Concluído o golpe e assumido o poder, o presidente Castelo Branco decretou o fim da Base de Nova Olinda do Norte alegando que não existia petróleo na cidade e ordenando a demissão imediata de todos os funcionários que haviam participado das manifestações, aproximadamente 1,8 mil operários.

As lideranças foram presas e trazidas para Manaus no navio da Petrobras. As escolas, hospital, cinema, usina de energia elétrica e distribuição de água potável, mantidos pela Petrobras foram fechadas e a cidade entrou em total decadência. Até hoje a Petrobras nunca se pronunciou formalmente a respeito desses acontecimentos.

Teorias para o fim da exploração do petróleo em Nova Olinda são muitas, mas, segundo pesquisas feitas nos periódicos da época, reforçam que o ouro negro extraído no coração da Amazônia foi considerado inviável economicamente.

Feito histórico em Nova Olinda do Norte foi manchete nacional (Reprodução/Internet)

Segundo relatos nos jornais, “o petróleo voltou a subir pelas sondas, mas os poços não foram desenvolvidos porque um geólogo americano, Walter Link, contratado pela Petrobras, alegou que o hidrocarboneto da região não tinha valor comercial e determinou o fechamento dos poços. Não compensaria o investimento. E com isso os poços foram lacrados”.

Passados 65 anos da façanha no coração da selva amazônica, o jornalista Náferson Cruz e o fotojornalista Ricardo Oliveira conseguiram acessar o local, e o que se viu foi um complexo de prédios históricos completamente deteriorados pelo tempo. Atualmente, parte deles serve de moradia às famílias carentes, e outra, já recuperada, atende à população por meio da gestão municipal.

O comerciante Francisco Nascimento de Oliveira, com seus 80 anos, conta que chegou dois anos depois do início das operações petrolíferas em Nova Olinda do Norte, mas carrega na memória o período áureo que vivenciou.

O comerciante Francisco Oliveira na base concretada da torre de extração de petróleo (Imagem/Ricardo Oliveira)

“Estava com 26 anos quando desembarquei na cidade, lembro que ainda dentro da barcaça observei a impressionante torre do poço petrolífero com quase 15 metros de altura. Aproximadamente dois mil operários trabalhavam no local. Devido à alta demanda comercial, passei a vender enlatados aos operários”, contou Francisco, durante o trajeto ao local descrito por ele.

Vinte minutos depois, ao se deparar com as ruínas, Francisco se emocionou com o que viu.

“O ambiente, na verdade, era de muita concorrência, como se aquela fartura não acabasse nunca. Não se tinha a menor ideia de que tudo aquilo se transformaria numa esperança ilusória”, lembra Francisco.

Migração e alta demanda comercial

Segundo Francisco Oliveira, a população tinha sobejos motivos como atração e, em poucos dias, iniciou-se a migração para a região da grande jazida petrolífera, avolumou-se uma gigantesca massa humana no município.

O porto que outrora mostrava-se um local inóspito, segundo Oliveira, tornou-se agitado com o tráfego de barcaças com as mais variadas distâncias, de diferentes portes e calados, chegavam e saíam transportando os componentes da equipe de pesquisa. Outros, trazendo famílias inteiras que migravam para Nova Olinda Norte, alguns transportando produtos alimentícios para vender. Também havia aqueles que procuravam empregos para se radicarem na próspera cidadezinha e então encontrar o seu “Eldorado”.

Lavouras deram lugar a galpões e máquinas

Dia 26 de agosto de 1953, chegavam à Nova Olinda os primeiros empurradores de nome Solimões e Tapajós, trazendo os alojamentos flutuantes e os materiais para erguer a primeira Torre Pioneira, a NO-1, para as instalações da Base de Apoio Operacional (BAO), com ramificações na região do Vale do Madeira.

O aposentado João Mendes da Silva, 84 anos, lembra da realização do sonho alimentado pelos petroleiros regionais e pela população novaolindense. Ele conta que não restava outra opção aos antigos moradores e posseiros senão ceder as suas posses para a construção de alojamentos como assentamentos da Base de Apoio, com as promessas de que trariam benefícios. “Foram construídos galpões, alojamentos, escritórios, enfermarias, maternidade, um Grupo Escolar, área para desporto e lazer”, descreveu.

João Mendes ressalta que as plantações dos antigos moradores foram derrubadas, a maioria delas foi lançada no rio Madeira, ficando apenas algumas castanheiras que foram utilizadas para as instalações do serviço de alto-falantes que transmitiam anúncios, informações, chamadas de operários.

Vista do casarão abandonado do antigo complexo da Petrobras (Imagem/Ricardo Oliveira)

Produção de 5 mil barris diários

Informações e imagens obtidas dos arquivos da Biblioteca Nacional reforçam a amplitude e o destaque que teve à época, a descoberta do petróleo em Nova Olinda do Norte. O repórter Oswaldo Bentes, testemunha do feito, descreve em sua matéria publicada no dia 9 de abril de 1955 na Revista Manchete os detalhes de um novo tempo na história do Amazonas e do Brasil.

“O petróleo era claro, quase puro, cristalino como se fosse óleo diesel. Seu teor de gasolina era também superior: 40 a 50 por cento em relação a outros poços existentes no Brasil. Tinha com base naftênica, o que significa dizer que além de gasolina, ele também era próprio para produção de lubrificantes leves”, contou Bentes.

Reportagem da revista Manchete de 1955 mostra o “ouro negro” na mão do trabalhador (Gervasio Baptista/Arquivo)

Segundo o jornalista da Manchete, o ouro negro de Nova Olinda superou todos os prognósticos, quebrando todos os recordes estabelecidos. O petróleo foi localizado a pouco mais de 2 mil metros. “Nenhum técnico acreditava – até a semana do grande acontecimento – que se pudesse achar petróleo na Amazônia em tão pequena profundidade”, narra Oswaldo Bentes, em sua reportagem.

Cálculos iniciais revelaram que o poço pioneiro em Nova Olinda poderia produzir um mínimo de 600 barris. Talvez chegasse a 5 mil diários.

Legado deteriorado pelo tempo

Valmir Abreu, 58 anos, mora há 8 anos em um dos prédios onde funcionava as instalações da Petrobras. A estrutura possui aspecto deteriorado e se fundem com a paisagem abandonada na orla da cidade. A rua que antes era feita com blocos de pedras, hoje deu lugar ao chão de terra batida e poeira. Devido a intenso fluxo de caminhões que trafegam pela rua, carregados de seixo e areia, o prédio onde reside com mais duas famílias tem a fachada coberta de poeira.

Valmir Abreu está morando há oito anos na construção abandonada (Imagem/Ricardo Oliveira)

Valmir lamenta pela situação e as condições de vida que leva. “Não tem como limpar, todos os dias os caminhões circulam por aqui. Não suportamos mais essa situação, mas não temos para onde ir”, disse o morador. Sobre o lugar onde residia, Valmir disse que sabia que o local no passado era destinado às atividades da Petrobras e que ali por perto havia um poço lacrado, porém não soube dizer o local exato. “Faz muito tempo, estou falando apenas o que ouço dos mais antigos”, completou.

A poucos metros da moradia de Valmir, funciona a sede da Secretaria Municipal de Educação de Nova Olinda do Norte. No local já reformado funcionava uma das dependências administrativas da Petrobras. Numa das salas ainda é mantida a cerâmica original da antiga estrutura – peças no formato hexagonal em tom avermelhado encaixadas milimetricamente.

O piso original foi preservado em uma das salas da secretaria de educação da cidade (Imagem/Ricardo Oliveira)

Para Aracy Cunha, secretária de Educação do município, preservar a história é manter vivo o legado cultural da cidade. “O petróleo trouxe consigo o desenvolvimento de Nova Olinda, agora nosso esforço é manter o legado dos tempos áureos”, enfatizou a gestora educacional. Para as demais edificações do complexo, ainda não há solução ou projeto.

Criação do município

Em 19 de dezembro de 1955, pela Lei Estadual nº 96, o município de Nova Olinda do Norte foi criado, com território desmembrado dos municípios de Maués e Itacoatiara, com sede na localidade e elevada à categoria de cidade.

Vista do antigo complexo da Petrobras na orla de Nova Olinda do Norte (Imagem/Ricardo Oliveira)

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